
Estamos vivendo restrições compulsórias à nossa liberdade física, que se impõe por força de medidas cautelares em defesa da saúde pública. São restrições que causam reflexos na seara econômica e na esfera psíquica dos cidadãos. Os governantes, diante da ameaça de contaminação em massa pelo Corona vírus, impuseram fechamento de comércio, serviços, e a vigilância sobre o trânsito de cidadãos. Em alguns casos, muitas medidas comprometeram a própria estrutura federativa do poder (municípios e estados “fechando” limites e divisas). Apesar de ter sido promulgada lei e decreto regulamentando as medidas a serem tomadas na situação excepcional, os abusos de poder ser tornaram evidentes.
Não vamos aqui expor a eficácia da chamada “quarentena” horizontal, e como essas medidas foram tomadas com ou sem embasamento, ou inexistência de fundamento científico para que essas restrições ocorressem. O que chama atenção é o número de cidadãos que aderem e assentem com a própria restrição à sua liberdade. Aplaudem, acriticamente, as medidas restritivas de modo a estabelecerem parceria com pessoas e órgãos públicos que lhes causam prejuízo cotidianamente pela péssima gestão pública que exercem, especialmente em face da saúde pública. Essas pessoas esquecem que muitos dos políticos que agora defendem a “quarentena” são os mesmos ineficientes gestores públicos que não disponibilizam, “normalmente”, serviço público de saúde de qualidade para a população.
Entenda-se! Aqui não estou desconsiderando a tendência à autopreservação que cada um tem da própria existência. É legítima e compreensível a defesa que cada um faz de si próprio, mediante um temor natural das doenças e da própria morte. Aqui, o que estamos enfocando é a maneira como muitas pessoas estão defendendo as medidas coativas de restrição à liberdade impostas por gestores públicos.
O que pode estar por trás dessa adesão de boa parte do povo talvez não seja o esquecimento, a remissão dos erros dos gestores públicos, ou quem sabe, certo cinismo disfarçado de defesa do bem-estar coletivo. A tendência é que cada um pense em si próprio, mesmo que use o discurso supostamente solidário. A hipocrisia nas atuais circunstâncias é revelada num discurso revestido de solidariedade que, no dia a dia, em condições normais sem ameaça de pandemia, não existe. Não é perceptível essa benevolência, essa preocupação com a saúde pública “para o bem-estar geral da população”.
Então, o que pode estimular, entre outras coisas, esse comportamento de adesão à quarentena imposta pelos gestores públicos pode ser o oportunismo de revanche. É uma prática visível num momento excepcional em que cidadãos, repito, nas condições normais, não ousariam exercer. Ou seja, muitos deixam aflorar, põem para fora, sua tendência ao autoritarismo e ao denuncismo. Tudo pode ser inerente a esse oportunismo: a rejeição ao governo federal, resistência ao mercado, ódios aos empresários, a vontade de indiciar pessoas que o sujeito antipatiza. Afloram, enfim, os ressentimentos e rancores contra uma realidade que incomoda, como se medidas excepcionais temporárias fosse promover uma justiça geral, a partir do desejo individual. Uma utopia. Pois bem. Por tudo que foi exposto sobre o oportunismo da revanche, imaginem vocês se vivêssemos num regime autoritário?